terça-feira, 10 de dezembro de 2013

pensando alto (4): 17 de outubro


17/10


Estou tentando pensar nas ações da peça. O que quer dizer que estou pensando, digo, tentando pensar nas ações situações que bolamos pro primeiro tratamento.

Muitas delas não têm sentido.

O problema, um problema é que várias coisas de que gostávamos muito simplesmente não apareceram enquanto outras coisas de em cima da hora ficaram porque cumpriram um papel de costura, que, não obstante fosse fundamental, nos atrapalha hoje quando as queremos remover pois desconfiamos ou entendemos que não têm qualquer motivo para serem sustentadas em cena. Às vezes mesmo porque já então não se sustentavam.

Algumas coisas surgiram que não são, digamos, diretamente oriundas nem do Insônia nem do Dias Felizes, que, entretanto, casam de maneira interessante com o clima das duas obras. Outras coisas porém são totais bobagens.

Há apenas uma bobagem que eu desejo manter. Mas que de modo algum descarto a possibilidade de descartar. Que é a cena dos três em volta da TV com a música do Otis Redding. Trata-se de algo aleatório. Como disse no ensaio pra eles precisamos desaleatorizar essas coisas. Não que necessitemos, ao invés, incorrer em sucessões de causalidades. Isto acontece porque aquilo. Provavelmente não é interessante pensar em a prioris. [inserido em 10/12: Isto é, não pensar que nunca nada aleatório ou que sempre causa e efeito (é ótimo ler a correspondência entre o Schneider e o Beckett que a Cosac Naify anexou na edição deles do Dias Felizes, do No author better served; o Schneider às vezes pergunta um "mas por que ela faz isso?" - super ok, porque às vezes de fato dá um desespero considerável pensar não estar entendendo nada do que tá acontecendo - e uma vez ele pergunta alguma coisa, acrescentando que a atriz perguntará também, haha)]

Quero dizer. A primeira cena do No é boa. Porque entende-se que ele guarda cada coisa em cada lugar. Entende-se a ação dele. A graça está no fato de que se brinca com a compreensão que se faz da cena.

Eu sugeri a Ian e Reinoso que o jogo entre No e Bo era o de que um tinha uma coisa que era do outro o outro tentava reavê-la. Hum, dizendo mais especificamente. Bo rouba No que toma de volta de Bo e toma ainda outra coisa de Bo.

Talvez precisemos estabelecer algum funcionamento dessa máquina.

Há esses dois homens que se ocupam de frugalidades envolvendo pequenos jogos de humilhação. Nada muito grave. Um tira as calças do outro. O outro não se retrai. Não?

Uma das coisas que mais me incomoda é como o personagem do Graciliano nesse momento escapa do Ian. Não que me incomode que escape dele. Mas nessa hora me incomoda o modo como escapa. O que veio até aí e o que daí segue são demasiado díspares do que aí ocorre. Entra-se num jogo cômico gags. Não à toa há uma suspensão absoluta de texto no Ian. O personagem se foi dele completamente. Agora vemos outra coisa. Há certo clima de improviso. Aquelas falas que saem espremidas, econômicas, quase envergonhadas. E me lembro de texto novamente pela boca do Ian quando ele repete o que a Laura diz. Se alguém apertasse ali. Enfim. [inserido em 10/12: hoje discordo, é claro que damos uma brincada descarada com o texto do GR, mas acho que essa bobagem que é o jogo do paletó entre No e Bo não é motivo de achar que se foi completamente do Ian o personagem do GR. Acho que é uma variação sobre o tema, uma variação ridícula.]

A mudança do personagem do Ian não pode ser tão brusca quanto foi. Fica simplesmente esquisito. Sem sentido e tal.

Não sei a respeito lá das coisas esquisitinhas de corpo dele.

Mas o meu problema mais que central aqui é o texto. Agora, hoje dia 17 de outubro. A o que menos de um mês pra estreia, percebo que o texto não vai sair. Simplesmente não há assunto.

Claro que desejo o contrário, que haja assunto e que haja texto. Digo mais pra não fingir para mim mesmo que não necessito me alarmar. Enfim, também quando ponho isso me tranquilizo, quando me digo que necessito me alarmar, de certo modo fico tranquilo porque estou em paz com o fato de que “ora, mas diante de tudo isso eu devia era estar intranquilo”. Porém nada tiro da minha intranquilidade, senão uma ansiedade nada produtiva.

O que acontece na peça: Um homem está roendo as unhas. Em seguida começa a vasculhar bolsos de paletós. Admira-se num espelho. Coloca coisas na boca. Cospe. Lê coisas. Um outro: acordou no meio da noite, ele deixará claro que estamos numa madrugada. Ele fala de uma pergunta que o acordou. Sim ou não? Eles conversarão. O outro ouve um despertador. Um despertador?, há uma ideia de despertar que sugere dia. Pensar com mais carinho de qualquer forma. Ele se levanta, dirige-se a outro cômodo, acende uma luz, que incide sobre uma mulher. Ela está em meio a vários vasos de plantas. Parece o jardim de inverno deles. Ela fala, sentada, não se desloca. Tem alguns movimentos, está perturbada por alguma coisa. Algo talvez proveniente de alguma memória corporal de alguma coisa. O outro volta. Os dois transitam pelos cômodos. Por que o primeiro levanta?

Preciso do Graciliano. O que o Ian diz no primeiro corte que fiz:

Não consigo estirar-me na cama, embrutecer-me novamente. Impossível a adaptação aos lençóis e às coisas moles que enchem o colchão e os travesseiros. Certamente aquilo foi alucinação. Sim ou não? Sim ou não? A pergunta corta a noite longa. Sim ou não? Esta pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo e acordou-me. Sim ou não? O corpo morto levantou-se rápido como se fosse impelido por um maquinismo.

[Preciso (pausa curta) continuar (pausa curta) a (pausa curta) dormir], encostar de novo a cabeça ao travesseiro e continuar a dormir, dormir sempre, não pensar, não desejar, matéria fria e impotente.
[Bicho inferior, planta ou pedra, num colchão.]

[Deverei levantar-me, andar,] convencer-me de que saí daquele sono de morte e posso mexer-me como um vivente qualquer, ir, vir,
chegar à janela

Impossível mover-me.
Sim ou Não?

Estarei completamente doido ou oscilarei ainda entre a razão e a loucura? Estou bem, é claro.
Tudo em redor se conserva em ordem.

Sim ou não?

São as sessões: No apresentação. Bo apresentação. Ba apresentação. Texto. Bo se levanta. Conflito Bo x No. (Como é?) conflito No x Ba. Interação Ba x Bo. Cena da TV. Quase estupro. Bo x No x Ba. Texto No. Conflito Bo x Ba. Estupro. Texto Bo x Ba. Regar as plantas com dejetos.

No uma palavra escrita, incapaz de criação. O apreciador de belas palavras. Ba fala de Aristóteles. Ele saca a sua Barsa. Vai atrás.

Sim ou não?

Momentos de texto de Bo (seguindo a cronologia de GR):
Introdução ao problema: que porra é Sim ou não?

Então temos ele já com a pergunta. No conto ele dá hipóteses. Desde o princípio ele diz, não era bem uma pergunta.

Ou seja, desde o princípio se insinua como outra coisa. Nesse sentido é interessante pensar no Reinoso como essa força escrota sobre ele. Haverá anterioridade sobre ele. Isto é, anterioridade do Reinoso sobre o Ian. Então é possível pensar que é alguma coisa que incide. Claro que não é. O No tá na dele. De repente acende uma luz sobre o Bo. Foda-se ele não tem nada a ver com isso.

No Graciliano não há dúvida, quanto ao que seja sim ou não. Ele quase põe dois pontos. Sim ou não: esta pergunta (...) [inserido em 10/12: hum, vou tentar colocar de maneira suficientemente ciosa: essa certeza não exclui a dúvida.]

No primeiro tratamento vimos que é possível o Ian falar isso. Tenho cá minhas dúvidas de que logo de cara. Isto é, tal como aparece no conto. Eu deixei a sequência pra um pouco depois, apesar de em sua primeira fala.

**

19/10

Resolvemos umas coisas ontem. Resolver é demais, mas achamos direções.

Bo tenta se vestir e No procura despi-lo. Podemos pensar com Graciliano.

“Quem me chama lá de fora, quem me quer afastar do túmulo, obrigar-me a andar na rua, tomar o bonde entrar no café?” § 27.

Bo se vestir implica em que ele escutou a voz e tomou a decisão de segui-la. Agora: é isto o que a voz lhe diz? A voz diz apenas “Sim ou Não?”.

[“a noite não finda” para indicar inequivocamente que se trata de noite]

(Luísa relacionou escutar a voz com os gritos que Winnie escuta. Gosto. Isto é, não sei como podemos associar isso em cena, mas gosto de ter que pensar nisso.)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Começos II

           
Ian ao ser convidado para o projeto
 

  
Ian canta hino da bandeira antes de começar
o ensaio, hábito dos tempos de exército; Luísa
envergonhada com a falta de respeito
da Lorrana, que dançava.
         
Então no começo era o Ian em cena. E uma primeira reunião no Tolezano. Falamos do Faustini, de fazer um esquete pra Niterói como mostra de processo e depois desenvolver numa peça pra estrear no Castelinho – isso era do Ian, que não via sentido em parar num esquete. E Sut: misturar com o Dias felizes, a Winnie, o corpo velho, a pesquisa da Lorrana. Então trazer a Lorrana, sua pesquisa de corpo, o treinamento do grupo, a Lo puxa, mas e o Willie? Então eu e Lo, Sut e Ian, dois casais para experimentarmos o Beckett. Mas o Sut não vai entrar em cena, em cena são três. Ah, tá, em cena são três. E aí já tinha passado tempo, já era um calor da porra, devia ser novembro ou dezembro.
Atores se refrescam em intervalo de ensaio
            Era o começo também da idéia de performar, falamos uma festa que servisse ao mesmo tempo para arrecadar dinheiro e para mostrar o nosso processo, na pilha do Faustini de transformar a produção em processo.
            Começamos, eu, Ian e Lorrana. O primeiro email do Sut pra gente foi em 21/11/12 e começa assim: Não sei exatamente do que se trata. Lorrana saiu, estava enrolada. Chamamos o Rei. Eu anunciei minha saída de cena, precisávamos de mais uma mulher. Eu não queria estar em cena, queria pesquisar e produzir. Nessa época já era outro ano, era começo de 2013, e em fevereiro outro email do Sut: gente tô escrevendo um diariozinho do processo até agora. Fiquei achando interessante algumas coisas pra documentar pra todos, pensei naquelas coisas de blogs. (...) Que vocês acham? A parada seria que todos escrevessem, botássemos referências também e coisas assim. Criamos o blog, diferente do blog do TARJa, que acabou ficando meio parado. Em maio o Rei criou o grupo no facebook, nessa altura já tinha muito mais gente do TARJa envolvida, e a Laura já tinha sido convidada para entrar em cena.
Reinoso acabando com o hábito do Ian, Luísa se desespera e resolve sair de cena
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Começos I

No começo era o verbo,
words, words, words,
blá blá blá.

            No começo era o Sut me dizendo: li um conto daquele livro que eu peguei na casa da sua avó, aquele do Graciliano, é o conto que dá nome ao livro, Insônia, tô pensando puxar o TARJa pra fazer alguma coisa com ele, pensei no Ian, o conto é um cara que acorda no meio da noite, pode ser um monólogo com o Ian, pra apresentar no Festival de Niterói do ano que vem, tem um outro conto de um amigo do Ian que eu li também, que é um casal, pensei em chamar o Vito e Lara pra fazerem, não sei, estou pensando em coisas. E lembro do meu primeiro medo, resposta imediata: não pode ser declamação de texto literário em cena, o Ian dizendo o texto do Graciliano de maneira bonitinha, só de pensar nisso tenho calafrios. (Isso era ano passado, talvez agosto, ou setembro, mas teríamos cerca de um ano até o próximo Festival de Esquetes de Niterói, que costumava ser no meio do ano, julho, por aí.)
            Começamos a cercar o Ian. (Comecei. Meses depois, num ensaio, o Ian falou: eu lembro da Luísa andando atrás de mim e falando, o Sut quer te chamar pra fazer uma parada, e eu dizendo, tá, porque ele não me chama então? – Foi quando me dei conta de como a parada tinha me tocado desde o começo, de como eu queria que acontecesse) (o outro projeto com a Lara e o Vito não rolou) (ainda).


sábado, 16 de novembro de 2013

Paulo, de Graciliano Ramos

Foto: Clayton Leite

Pedaços de algodão e gaze amarelos de pus enchem o balde. Abriram todas as vidraças. E no calor da sala mergulho num banho de suor. Já me vestiram diversos camisões brancos, que em poucos minutos se ensoparam. Não posso afastar os panos molhados e ardentes.

As crianças estiveram a correr no chão lavado a petróleo.

– Retirem essas crianças.

Inútil trazê-las para aqui, mostrar-lhes o corpo que se desmancha numa cama estreita de hospital. Não as distingui bem na garoa que invade a sala: são criaturas estranhas, a recordação das suas fisionomias apagadas fatiga-me.

– Retirem essas crianças barulhentas.

As paredes amarelas cobrem-se de pus, o teto cobre-se de pus. A minha carne, que apodrece, suja a gaze e o algodão, espalha-se no teto e nas paredes.

A alguns passos, uma figura de mulher se evapora. Aproxima-se, está quase visível, tem uma cara amiga, uma vida que esteve presa à minha. Mas essa criatura, dificilmente organizada, pesa demais dentro de mim, necessito esforço enorme para conservar unidas as suas partes que se querem desagregar.

As minhas pálpebras cerram-se, a mulher esmorece, transforma-se numa sombra pálida. Se me fosse possível falar, pedir-lhe-ia que me deixasse.

Os médicos estiveram aqui há pouco, fizeram o curativo. Enquanto amarravam a atadura, os enfermeiros me levantavam e eu me sentia leve, parecia-me que ia voar, flutuar como balão, esgueirando-me por uma janela, fugir do cheiro de petróleo e do calor, ganhar o espaço, fazer companhia aos urubus. As palmas dos coqueiros ficariam longe, na praia branca, invisíveis como a mulher que desapareceu na sala neblinosa. Os meus olhos não podem varar esta neblina densa.

Creio que dormi horas. O balde sumiu-se. Muitas pessoas falam, há um burburinho interminável na escuridão. Seria bom que me deixassem em paz. A conversa comprida rola na sala enorme; a sala é uma praça cheia de movimento e rumor.

A imobilidade atormenta-me, desejo gritar, mas apenas consigo gemer baixinho. Se pudesse, diria qualquer coisa à figura alvacenta, que tem agora as feições de minha mulher. Um assunto me preocupa, mas certamente ela não me entenderia se eu fosse capaz de expressar-me. Contudo necessito pedir-lhe que mande chamar o médico. A voz sai-me arrastada, provavelmente digo incongruências. Minha mulher espanta-se, uma grande aflição marcada nos beiços lívidos e na ruga da testa.

Aborreço-me, exijo que me levem para a enfermaria dos indigentes. Estaria lá melhor, talvez lá me compreendessem. Horríveis estas paredes. Sinto-me abandonado, lamento-me, injurio a criatura solícita que se chega à cama. Por que me olha com olhos de mal-assombrado? Não percebeu o que eu disse? Bom que me mandassem para a enfermaria dos indigentes.

A ferida tortura-me, uma ferida que muda de lugar e está em todo o lado direito. Procuro convencer minha mulher de que o lado direito se inutilizou e é conveniente suprimi-lo.

A enfermaria dos indigentes.

Que fim teria levado o médico? EIe me compreenderia, não me olharia com espanto e ruga na testa.

A minha banda direita está perdida, não há meio de salvá-la. As pastas de algodão ficam amarelas, sinto que me decomponho, que uma perna, um braço, metade da cabeça, já não me pertencem, querem largar-me. Por que não me levam outra vez para a mesa de operações? Abrir-me-iam pelo meio, dividir-me-iam em dois. Ficaria aqui a parte esquerda, a direita iria para o mármore do necrotério. Cortar-me, libertar-me deste miserável que se agarrou a mim e tenta corromper-me.

A neblina se dissipa, as paredes se aproximam, estão visíveis as fôlhas dos coqueiros e o telhado da penitenciária, o avental da enfermeira aparece e desaparece.

A ruga da testa de minha mulher desfez-se. Provavelmente, ela supôs que o delírio tinha terminado. Absurdo imaginar um indivíduo preso a mim, um indivíduo que, na mesa de operações, se afastaria para sempre. Arrependo-me de ter revelado a existência do intruso. Certamente, minha mulher vai afligir-se com a loucura que me persegue.

Fecho os olhos, vexado, como um menino surpreendido a praticar tolice. Finjo dormir: talvez minha mulher julgue que falei em sonho. Contenho a respiração, o suor corre-me na cara e no pescoço.

Lá fora eu era um sujeito aperreado por trabalhos maçadores, andava para cima e para baixo, como uma barata. Nunca estava em casa. Recolhia-me cedo, mas o pensamento corria longe, fazia voltas em torno de pensamentos desagradáveis. Recordações de tipos odiosos, rancor, a ideia de ter sido humilhado, muitos anos antes, por um sujeito que se multiplicava.

O nevoeiro embranquece novamente a ala, as paredes somem-se, o rosto da mulher mexese numa sombra leitosa. Torno a desejar que me levem para a mesa de operações, cortem as amarras que me ligam ao intruso.

Evidentemente, uma pessoa achacada tomou conta de mim. Esta criatura surgiu há dois meses, todos os dias me xinga e ameaça, especialmente de noite ou quando estou só. Zango-me, discuto com ela, penso em João Teodósio espírita e maluco. João Teodósio tem olhos medonhos, parece olhar para dentro e fala nos bondes com passageiros invisíveis. O homem que se apoderou do meu lado direito não tem cara e ordinariamente é silencioso. Mas incomoda-me. Defendo-me, grito palavrões e o sem-vergonha escuta-me com um sorriso falso, um sorriso impossível, porque ele não tem boca.

Tentei ler um jornal. As linhas misturavam-se, indecifráveis. Receei endoidecer, mastiguei uns nomes que minha mulher não entendeu, queixei-me do médico e de Paulo. Como ela não conhecia Paulo, impacientei-me, julguei-a estúpida, esforcei-me por me virar para o outro lado, o que não consegui.

Certamente, as criaturas que me cercam embruteceram, são como as crianças que estiveram correndo no chão lavado a petróleo. A enfermeira tem caprichos esquisitos, o médico não perceberá que é necessário operar-me de novo, minha mulher franze a testa e arregala os olhos ouvindo as coisas mais simples.

Comecei um discurso, uma espécie de conferência, para explicar quem é Paulo, mas atrapalhei-me, cansei e desprezei aquelas inteligências tacanhas. Tempo perdido. Sentia-me superior aos outros, apesar de não ser possível exprimir-me.

Realmente, Paulo é inexplicável: falta-lhe o rosto e o seu corpo - é esta carne que se imobiliza e apodrece, colada à cama do hospital. Entretanto, sorri. Um sorriso medonho, sem dentes, sorriso amarelo que escorre pelas paredes, sorriso nauseabundo que se derrama no chão lavado a petróleo.

Escurece. A camisa molhada já não me escalda a pele: esfriou, gelou. E os meus dentes batem castanholas. Morrem os cochichos que zumbiam na sala. Alguém me pega um braço, dedos procuram a artéria.

A escuridão se atenua, o burburinho confuso reaparece, a camisa torna a queimar-me a pele, os dentes calam-se. Incomoda-me a pressão que me fazem no pulso, tento libertar o braço. A mão desconhecida tateia, procurando a artéria. Há um zunzum na sala, vozes confundem-se como num cortiço de abelhas. Sinto ferroadas terríveis na ferida.

Os dedos seguram-me, tenho a impressão de que Paulo me agarra. Um rumor enfadonho, provavelmente reprodução de maçadas antigas, berros de patrões, ordens, exigências, choradeiras, gemidos, pragas, transformam-se num sussurro de abelhas que Paulo me sopra ao ouvido. Agito a cabeça para afugentar o som importuno. Se pudesse, cobriria as orelhas com as palmas das mãos.

Afinal, ignoro quem é Paulo e reconheço que minha mulher tem razão quando me oferece pedaços de realidade: visitas de amigos, colheres de remédio, a comida intragável.

Devo aceitar isso. Curar-me-ei, percorrerei as ruas como os outros. A princípio, arrastar-me-ei pelos corredores do hospital, com muletas, parando às portas das enfermarias dos indigentes; depois sairei, a perna ainda encolhida, andarei escorado a uma bengala, habituar-me-ei a subir nos bondes, verei João Teodósio fazendo sinais misteriosos a um lugar vazio.

Preciso resistir às ideias estranhas que me assaltam. Bebo o remédio, peço a injeção, espero ansioso que o médico venha mudar a gaze e o algodão molhado de pus.

Entrarei nos cafés, conversarei sobre política. Uma, duas vezes por semana, irei com minha mulher ao cinema. De volta, comentaremos a fita, papaguearemos um minuto com os vizinhos na calçada. Não nos deteremos diante da porta de João Teodósio. Apressaremos o passo, fugiremos daqueles olhos medonhos de quem vê almas.

Em que estará pensando João Teodósio? Minha mulher interroga-me admirada, repete palavras incoerentes que dirigi a João Teodósio.

Sem querer, entro a palestrar com ele, de volta do cinema. Apoio-me à bengala e suspendo um pouco a perna avariada.

A ferida começa a doer-me horrivelmente. Não estou de pé, cavaqueando com um vizinho amalucado, estou de costas num colchão duro. Veio-me um acesso de tosse e o tubo de borracha que me atravessa a barriga parece um punhal. Gemo, o suor corre-me entre as costelas magras como as de um cachorro esfomeado. Tenho sede. A enfermeira chega-me aos beiços gretados um cálice de água. Bebo, ponho-me a soluçar. Os soluços sacodem-me, rasgam-me, enterram-me o punhal nas entranhas.

Estou sendo assassinado. Em redor, tudo se transforma. O avental da enfermeira ficou transparente como vidro. Minha mulher abandonou-me. Acho-me numa floresta, caído, as costas ferindo-se no chão e um assassino furando-me lentamente a barriga. As paredes recuam, fundem-se com o céu, as folhas dos coqueiros tremem e passa entre elas o cochicho que zumbe na sala.

Paulo está curvado por cima de mim, remexe com um punhal a ferida. Estertor de moribundo na floresta, perto de um pântano. Há uma nata de petróleo na água estagnada, coaxam rãs na sala.

Não conheço Paulo. Tento explicar-lhe que não o conheço, que ele não tem motivo para matar-me. Nunca lhe fiz mal, passei a vida ocupado em trabalhos difíceis, caindo, levantando-me, cansado. Peço-lhe que me deixe, balbucio súplicas nojentas. Não lhe quero mal, não o conheço.

Mentira. Sempre vivemos juntos. Desejo que me operem e me livrem dele.

Sairei pelas ruas, leve e o meu coração baterá como o coração das crianças. Paulo ficará na mesa de operações, continuará a decompor-se no mármore do necrotério.

O que estou dizendo a gemer, a espojar-me, é falsidade. Paulo compreende-me. Curva-se, olha-me sem olhos, espalha em roda um sorriso repugnante e viscoso, que treme no ar.

Uma figura branca desmaia. O burburinho finda. Alguém me segura novamente o braço, procurando a artéria. O punhal revolve a chaga que me mata.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Tópicos especiais em estética - aula 2

"Aquele que deseja e não age engendra a peste" - W. Blake


Sempre acabo saindo das aulas do Patrick com questões sobre o Insônia. Que ele nunca venha aqui ler as bobagens que estou prestes a escrever, sob pena de eu ser reprovada com alguns dos gestos grandiloquentes dele: “mas você não entendeu nada!” (caretas acompanhadas movimento de mãos e braços).

Na segunda aula, fiquei às voltas com o que ele falou sobre o Barão de Münchhausen. A imagem do Barão, que sem ter como sair da água puxa a si próprio pelos cabelos, sempre me deixou meio fascinada, e desde que li o conto do Graciliano ela voltou na minha cabeça, mas não sabia bem como unir as duas.

Pra quem não sabe do que estou falando, no segundo parágrafo ele diz: Sim ou não? Para bem dizer não era pergunta, voz interior ou fantasmagoria de sonho: era uma espécie de mão poderosa que me agarrava os cabelos e me levantava do colchão, brutalmente, me sentava na cama, arrepiado e aturdido. Nunca ninguém despertou de semelhante maneira. Uma garra segurando-me os cabelos, puxando-me para cima, forçando-me a erguer o espinhaço, e a voz soprava aos meus ouvidos, gritada aos meus ouvidos: – “Sim ou não?”.
 
Na aula a que me refiro, o Patrick (via Foucault) falou do Barão como alguém que, sem ancoragens em mais nada, só pode se ancorar em sua própria existência para elevar-se. Essa seria a diferença entre o técnico (professor) e o parresiasta: o professor apoia-se na sua técnica, no que aprendeu e deve passar adiante, ao passo que o parresiasta possui autonomia, o modo de fazer é o modo de ser feito. Mas o nosso homem é puxado por um maquinismo, ele não se puxa pelos cabelos. Não? Bem, aí poderíamos ter duas possíveis interpretações, vamos a elas (que não se ache que eu tenho uma resposta, estou só cuspindo ideia).

Se acreditarmos que ele de fato é puxado, há aqui um sair de um lugar de sonho/sono para um lugar de “real”, “realidade” (entre aspas por medo). No começo dessa mesma aula, Patrick fez uma longa preleção sobre Descartes, da qual eu não entendi tudo, até porque meu entendimento de Descartes vai até o ensino médio, mas ele falava do homem são como base moral para a sociedade, mas que mesmo esse homem são, ou seja, aquele que não é louco, pensando rasteiramente, tem seu momento de loucura, no sono. A base moral da sociedade é, portanto, o homem são acordado. Isso porque para Descartes o homem é “penso, logo existo”, é coisa que pensa, é objeto, o homem que sonha, dormindo ou acordado, não pensa. Nosso querido insone, voltando ao Graciliano, é, acordado, esse homem, essa base moral da sociedade, engravatado: Rio, tento libertar-me da loucura que me puxa para uma nova queda, explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoço não é uma voz: é uma gravata. Entendem onde quero chegar? Se ele é puxado, nada temos do Barão aqui, não há parresia, não há coragem, não há nada, há um sujeito que acordou no meio da noite, não reatou o sono, foi sentar-se à mesa e fumar. Apenas.


Mas não, acho que não. A segunda possibilidade é acreditarmos que a garra que o puxa é ele mesmo, elevando-se a si próprio, ancorando-se em sua própria existência. Fiquei pensando nisso a partir do último  texto do Sutque ele vem fazendo uma oposição entre a insônia em que o cara está e o cotidiano que ele espera, mas no final abre uma brecha para pensarmos a insônia como parte desse cotidiano terrível, sintoma, dois lados da moeda. E porque então o puxar-se do sono para a insônia tem par com o Barão de Münchhausen? Porque na insônia ele não é esse cidadão comum, bicho doméstico, ele desejaria voltar a ser homem, mas não deseja nem é, ele não é o homem do sorriso amarelo que não gosta de contrariar o outro que acha tudo ruim na vida, ele é o outro. Estou me perdendo ou alguém ainda me acompanha? Faz sentido, isso? A insônia não é o natural cotidiano, o homem são, para isso precisa-se do dormir-acordar-segunda-terça, como disse o Sut, mas também não é o seu extremo oposto, porque é efeito deste. A causa da insônia não está no externo: na luz, na voz, nas batidas do relógio, na mão-garra, na gravata, no ladrão, no rato. Ela está no interno do homem-cotidiano e nos seus microproblemas que o compõe: o ladrão que pode entrar, o rato que ele precisa dedetizar, na gravata que ele precisa vestir, na hora que precisa cumprir, nas decisões que precisa tomar. Blábláblá e é claro que não se reduz a isso, mas aqui e agora me parece uma maneira interessante de encarar esse acordar súbito no meio da noite.

Mas para nós é preciso (sinto falta de) confrontar sua ausência de sono e seu desejo de dormir com a relação da Winnie com o dormir-acordar e a campainha (e as batidas do relógio?). Só que depois.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

pensando alto (3)



19/10

“Um silêncio grande envolve o mundo. Contudo a voz que me aflige continua a mergulhar-me nos ouvidos, a apertar-me o pescoço. Estremeço. Como é possível semelhante coisa? Como é possível uma voz apertar o pescoço de alguém? Rio, tento libertar-me da loucura que me puxa para uma nova queda, explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoço não é uma voz: é uma gravata. A voz diz apenas: – “Sim ou não?” Hem? Que vou responder?” §23

Não é uma voz, é uma gravata. Antes era: não é uma voz, é uma mão poderosa, uma garra. E uma voz. A voz diz apenas. Sim. Não é uma voz que está apertando seu pescoço. O que aperta seu pescoço é uma gravata. A voz diz apenas sim ou não. São as duas coisas. A voz e a gravata. Sim ou não a gravata. Sim ou não levantar-se. Sim ou não, deverei levantar-me. Deverei levantar-me colocar uma gravata, sair, andar como um vivente qualquer? Sim ou não?

O quarto da insônia, digo, o que se opõe ao quarto da insônia é a vida. Mas trata-se de uma vida menos tumular que aquela do quarto? O que significa afastar-se do túmulo? [“Este quarto é uma sepultura. Uma sepultura onde pedaços do mundo se ampliam desesperadamente.” O problema de pensar numa caracterização cadavérica deles, ou melhor, os problemas: talvez remeta muito a algo romântico, especialmente Laura, que já é branca pra caralho (se bem que Reinoso é negro, então ficamos quites); deixar a possibilidade de se encarar a cena como metáfora pra morte, deixar margem pruma ideia de pura alegoria (tipo Lost). Quando se diz, quando GR diz, estou só e morto, é e não é uma metáfora (sou eu quem diz, provavelmente forçando a barra). Pois parece que existe qualquer coisa na experiência que ele ora vive que se aproxima ou mesmo se assemelha demasiadamente com o que se suporia ser a experiência da morte. Ou seja, trata-se, de certo modo, de uma morte. Sem falar do sono, sono de morte. Não deixa de ser hiperbólico, pois de fato (de fato?) ele não está morto (lá vou eu fazendo o que eu não queria fazer), mas diz que está. É relevante ele dizer que está morto sem estar morto. Decomposição, esqueleto, fogo fátuo, vermes, sepultura, túmulo. E, porém, é justamente num momento em que se encontra sozinho consigo mesmo, num momento em que a experiência se estende indefinidamente, ao contrário da dureza que vive no cotidiano - andar pela rua, conversar, tomar o bonde, engravatar-se (frase incompleta). Não quero dizer com isso que a insônia por não ser dura como o cotidiano é, em oposição, uma maravilha. Fala sério. Oposições: a primeira é uma experiência de sem-limite, dormir é um fim, dormir põe fim a uma cena, a cena de um dia, ou, se preferir, é um intervalo entre uma cena e outra, é um princípio organizador. Segunda, Terça. Dormir participa da distinção. Agora é segunda. Durmo, acordo. Agora é terça. Se não se limita, se não se coloca, de um lado, segunda, de outro, terça, entra-se numa experiência de mistura (não exatamente mistura, misturar é pegar uma coisa e outra e colocá-las juntas, nesse caso, os contornos que delimitariam uma coisa discreta à outra se apagam, e há apenas uma coisa, ou seja, ela não se mistura consigo mesma: é apenas uma coisa contínua), de infinitude. Sem limites. A tendência do corpo aí é o desgaste, a exaustão. A morte. Alucinar. Rompe-se com a ordem dos dias. Os dias serão linhas contínuas, um período claro, um período escuro. É tudo uma coisa só, ou melhor, não há “tudo”. Há uma coisa: o tempo contínuo, que somente se distingue através da luminosidade do dia (lembro da epígrafe do Contra o Dia do Pynchon, o Thelonious Monk “Só há noite, do contrário não precisaríamos de luz”. Falando com a Luísa que eu não entendia como isso podia ser pensado pro dia, ela me disse, “Mas no dia há o sol”, o universo é noite. O que me faz debruçar-me ainda mais sobre o Bring on the Night do Police), agora, luz, agora, não. Ainda que o dia seja horrível, que seja terrível conversar com algumas pessoas, que seja um saco sobreviver ("Nós não precisamos sobreviver", lembro, resposta de Ferlinghetti a Gary Snyder, quando Snyder, tido como pacifista, disse que mantinha armas em casa para o caso de aparecerem ursos. Naquele livro de entrevistas com os Beat, da Azougue), ainda assim, é melhor que ficar ali pensando aquelas coisas, ouvindo vozes perguntando-lhe coisas, não dormindo. Mas volta a questão, será que é melhor mesmo?]

Cai-se num outro túmulo afastando-se deste túmulo?

Trata-se em certa medida de algo trágico. Me explico. Ou desejamos o terrível do andar pelas ruas como um vivente qualquer, ou o terrível de se estar só e morto em sua cama, sem dormir, sentindo-se impelido para fora, porque a experiência de infinitude, ou indistinção (relativa a tempo, talvez principalmente) é insuportável, o mal do cotidiano é suportável. Não sei vocês, mas pra mim aí pesou o verbo ser. Talvez a seguinte analogia: pensar para o cotidiano as funções fisiológicas "em ordem", a insônia uma doença que sinaliza para o corpo "você está vivo e não está nada bem". Este cara que se frustra com seu dia não tem lugar, não pertence nem à sua casa nem à rua. Ou melhor, não pertence como desejaria.

Mas a ideia de que não há saída. Saída? Onde se está, de que se pode assim sair? Querer assim sair?

Lembro do Despovoador. E de Carpet Crawlers.

sábado, 19 de outubro de 2013

pensando alto (2)


14/10

[...]

Outra fala: tem o episódio do Charlie Hunter, ocasionado pela leitura do obituário que Bo faz. Ele ainda depois dispara uma outra. Uma senhora ou senhor que tenha morrido cuja morte ou missa de sétimo dia tenha sido registrada n’O Globo. A ideia é que Ba reagisse a qualquer nome com profundo amor. Profundo é até uma boa palavra. Não se trata exatamente de intenso. Mas de algo profundo, remoto, quase esquecido.

Precisamos trabalhar esse trecho. Trata-se de uma piada. E não penso ser uma tão difícil, ainda que difícil. Enfim, é isso aí. Gosto e casa com a situação. Estirar o jornal à frente, etc. O outro lá bolado no fundo. [19/10: estamos revisando as posições de cada um no espaço] O problema é parecer demais com início do dia. Perguntei pra eles hoje. Estamos com Bo e No com certeza de madrugada. Como é pra Ba, ela está ali com eles vivendo o dia da Winnie ou se referindo ao dia que virá mas na madrugada dos dois caras? Eles preferiram a segunda opção. Penso ok.

Terceira fala: [p.51] [vou digitar sem as rubricas pra não enlouquecer] [Coisa estranha, numa hora destas, lembrar de coisas assim/ Estranha?/ Não, aqui tudo é estranho/ Sou grata por isto, em todo caso/ Muito grata] / Abaixar e levantar a cabeça, abaixar e levantar, sempre assim/ E agora?/ Talvez seja um pouco cedo – para me aprontar – para a noite – o velho estilo! – e mesmo assim faço isto – me arrumo para a noite – sentindo que ela se aproxima – que vai tocar – a campainha de dormir – repetindo, Winnie, não falta muito agora, Winnie – para a campainha de dormir/ às vezes acontece de eu me enganar/ Muito de vez em quando/ Acontece, depois de tudo pronto, pelo dia, tudo feito, tudo dito, tudo acabado para a noite, e o dia longe de terminar, longe do fim, a noite ainda não se aprontou, está longe, longe de pronta/ de vez em quando/ é, quando sinto que está próxima, a campainha de dormir, e me preparo para a noite – (gesto) – e assim acontece de eu me enganar -/ - mas muito de vez em quando.

Havia um fragmento na embolação de falas entre Bo, Ba e No. Referente a um trecho do Graciliano. “A luz que varre o quarto é comum (...) Não (...) às vezes acontece de eu me enganar.” Não vou dizer que é de todo ruim, e que deve ser extirpado do texto. Porém, creio que é de vital importância que entre o depois de “tudo dito, tudo feito”.

Não sei em que momento pode entrar. Pensar. [19/10: já coloquei pra eles isso: acho esquisito, ou melhor, talvez não faça qualquer sentido a Laura falar "ah, o velho estilo". Talvez seja demais ignorar a aparência clara dela de 21 anos. Problema da campainha de dormir. De repente eu acho que possa haver alguma relação entre ela e a pergunta do GR. Ou não claro. Mas uma força que impele. Não sei.]

Quarta fala: Meu primeiro baile.

Em Beckett, ela vem de um dos anúncios que o Willie lê. A saber: Precisa-se de rapaz inteligente. Não me furto a pensar numa possível conexão entre ambas as manifestações. Não uma causalidade. É demais. Do tipo: ela fala do baile porque se lembra do rapaz inteligente que era o Johnson ou Johnston ou Johnstone. Sei lá, prefiro não. Isso vai na onda do tudo se encaixa. Mas em função da lembrança afetuosa do Charlie Hunter, ela vai na onda de outras lembranças ali do mesmo campo semântico. Sem falar que o Willie ajuda, rapaz inteligente, jovem dinâmico. Só que: após rapaz inteligente, Meu primeiro baile, beijo, Johhnstone; após jovem dinâmico, ela enfim coloca o chapéu (o que vinha tentando fazer, sendo interrompida pelas leituras de Willie) e retoma a leitura da escova de dentes. Por quê? Por que para?

Primeira coisa que penso: Houve o primeiro baile, o primeiro beijo, Johnstone, depois houve Willie e fim de papo (aquele trecho [p.63] “Ah, sei que você nunca foi de falar ‘Te adoro, Winnie, seja minha’, e depois daquele dia fim de papo, a não ser pelos anúncios de jornal”. Haha, muito bom. E isso no fundo do poço do segundo ato). Voltarei a isso, quem sabe, mais à frente.

E quanto à pedra no nome de Johnstone? Viajei baixo. Pensei qualquer coisa a ver com a atual condição da Winnie. Uou. Caralho. Entendi só agora o que o Guattari falou [Fala de passagem no "Devir mulher". Lá no "Revolução Molecular".]. Agorinha. Devir-mineral de Beckett (Isto é, acho que entendi. Mas, se entendi, devir mineral aqui, sim, mas não em qualquer peça. Ou, hum, tá, acho que entendi, mas é mais complexo que penso. Porque aqui é literalmente, ela sendo sucked up pela terra. Torna-se terra [torna-se, isto é, segundo a ideia de devir, relação entre as partículas de Winnie e partículas de terra, dir-se-ia, relações estabelecidas de lentidão e rapidez. Não é que ela agora seja terra. Não.], os sons de deslizamentos, desabamentos que ouve. A ver com a proximidade do rosto dela ao monte. Ela pode provavelmente ouvir os efeitos da dilatação da terra. Ah sei lá, futuramente se poderá refletir mais a respeito). Pô, bacana. Essa relação da Winnie com a terra. E a relação do Johnstone com a pedra. Mas que porra é essa? Luísa disse possivelmente dureza remetendo a ereção. Virilidade, homem viril, coisa que Willie não é, pode ser que já tenha sido, mas não é mais, sem dúvida. “Por que ele não a desenterra? De que ela lhe serve assim?”. Winnie e Willie, é mais que evidente, não transam tem um tempo.

Bom, viajei aqui. Enfim, em Beckett vem daí. Nós nos preocupamos pouco com isso.

Ba é jovem. Não é casada. [19/10: Ou melhor, isso não entra em questão. Ou ainda, pelo menos não como entra em Beckett.] Está ali, ok. A ideia é que quando No pegue-a firme pelos braços, ela de costas pra ele, ele segurando-a firme, erguendo seu tronco que debruçava-se sobre suas pernas, isto é, o tronco de Ba sobre as pernas de Ba, à frente do seu, isto é, o tronco de Ba à frente do tronco de No, as costas dela contra seu peito, à frente dela Bo com cara de assustado e excitado, ela esgarça a boca num sorriso, Bo se anima com a aparente aprovação que recebe dela.

Aí é vulgarzinho mesmo e é isso aí. Sem falar que é uma piadinha nefasta também, se quiserem. A rispidez e a força de como é agarrada a remetem ao primeiro baile. Ao primeiro beijo. Bai-le. Fala-se baile ainda? Sinto que é uma palavra que pra lá de não pertence àquilo que se usa chamar de minha geração. Festa. Não é assim que se diz?

Ah mas que idiota, sut, sério?

É. Uhum. A respeito de botar a fala da Winnie aí onde eu falei, você diz?

É. Sério mesmo?

É, sim, é essa a ideia. Assim, não acho genial nem nada, mas curto. Acho uma costura bacana. E enfim, depois rolam umas paradas.


[...]